segunda-feira, 1 de maio de 2006

Um corpo que vaga

As tardes nunca mais foram tão amarelas e claras como aquela...sem dúvida foi um daqueles dias em que a natureza intervém para torná-lo ainda mais vivo e forte.Sinto minhas entranhas arderem de um frio que cala o silêncio das minhas noites, cada vez que invade minha mente o amarelo enegrecido daquela tarde. Estávamos, Alberta e eu, já felizes por termos passado imunes pelo congestionamento habitual da Paulista, o qual sempre nos rouba nossas filhas, pobrezinhas, sempre tão agitadas: inglês, natação, roupas e brinquedos novos; fosse, talvez, o dia de chegarmos a tempo para dizer-lhes: "Boa noite". Alberta acelerou, mas pude ver em seus olhos o brilho daquela felicidade se acinzentando de azuis, pretos, brancos metálicos lentamente se unindo, colorindo o horizonte numa triste e silenciosa vista do pôr-do-sol. O carro parou e também nós paramos...-Aposto que é um cachorro atropelado.-Foi esta a frase com que Alberta denunciou o final daquele brilho em seus olhos. Fechar os vidros, travar as portas...Soltei a gravata enquanto Alberta mordia os cantos da boca...Odiava vê-la assim, deformava o rosto, mas ela não parou até que percebeu algo movendo as latas de lixo na calçada, fingiu não ter visto...Mas eu sabia que aquela visão a invadia, a vasculhava, adentrava teimosamente seu mundo...Arrancou até umas gotas de suor de sua fronte,as quais rapidamente enxugou-Fechou os vidros?Travou as portas?-As perguntas eram a prova da minha suspeita, ela estava sendo invadida pelo lixo.E ele continuava, impiedoso,movia-se,revirava-se, comia-se...-Será um cachorro?-Eu naum respondi, as luzes do motel em frente revelavam escondiam, piscando, a realidade-lixo, homem,lixo,homem,lixo-Alberta quase sorria ao se apagarem as luzes, eu também as preferia apagadas, assim não me corroíam os vermes, nem os da morte, nem os da desigualdade, porque lixo é morte, é podridão, e Alberta sabia disso, devia sentir dilacerar-lhe a alma a proximidade com aquela carne podre,carne como a sua que trazia muito limpa e cheirosa...cada minuto que passava presa ali.-pois estávamos presos nós três,por motivos e mundos diferentes, mas todos diante da mesma passividade e do mesmo tão comum individualismo dos seres humanos viventes em sociedade.É um paradoxo, é, pois, humano.-Torturava-lhe mais e mais a incapacidade de fazer algo por aquela coisa que tão semelhante, e por isso afrontante, lhe parecia. Independente da sua decisão,o lixo continuava: gemia-se,revirava-se...Afrontava-nos o modo como vencia a morte tirando dela sua vida a cada dia...Fazia nos sentir imundos, a cada mordida, a cada engolida daquilo de que Alberta e eu só aprendemos a fugir.Uma lágrima escapou dos seus olhos agora trites...Era o anúncio do seu fracasso, da sua decisão, a ação lhe pareceu correta, "albertamente" correta...Ela não faria nada.-Eu sabia, imagine, que um dia eu estava sujo de terra,pois havia jogado futebol e ela passou por mim, na rua, fingindo não reconhecer.-O lixo não sabia, mas pôs à prova a parte mais dura, a essência de Alberta,criada entre jóias e perfumes franceses...Não podia, o que diria sua mãe se a visse convidando um mendigo para o jantar? O que diria seu pai? Suas tias? Lutou a vida toda para se esquecer de que um dia ia apodrecer e chamou isso de viver bem. Como ia, agora, poder se aproximar de alguém que podia tirar vida daquilo que ela sempre chamou de morte? As fronteiras eram claras para ela! "Ser ou naum ser?" E Alberta não foi! Manteve sua alma enjaulada onde achou melhor a sociedade. Na verdade, quando o carro finalmente acelerou e o lixo foi ficando pequeno no retrovisor, senti pena, não do lixo, mas de Alberta que é uma pobre alma trancada dentro de um corpo que a mata um pouco por dia...Mais uma roupa que a esconde,mais um perfume que a sufoca, mais uma atitude mesquinha, ela já não tem força para simplesmente ser. talvez já não seja nada, e por isso tantas jóias,tantos prefumes capazes de esconder o mal cehiro de alguém que apodrece ainda em vida. Não pude nunca esquecer-me daquele dia, sei que Alberta também não se esquece, pois o lixo que ficava na cozinha foi mudado para o quintal, onde permaneceu longe de suas vistas. Novamente sacrificou sua alma em nome de sua "casca".

Patrícia Francisca Magri(Americana-SP)

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